O tic-tac do relógio na parede pareciam marteladas em meu cérebro. Aquele relógio em Praga realmente fazia sentido quando eu ouvia o tic-tac naquela sala de espera do consultório. O silencio era angustiante. Olho ao meu redor. Cada indivíduo com sua verdade. O que será que passa na cabeça deles. E na minha?

Faço um exame de consciência. Aprendi na terapia. É uma técnica bem interessante. Imagine-se em um barco navegando à mercê da maré. Me lembra Alice, afinal, para quem não sabe para onde quer ir, qualquer caminho serve. Estar consciente é olhar as estrelas e se posicionar. Procure o cruzeiro do Sul e veja onde a maré está te levando com relação a essa referência.  Talvez você descubra que está indo para Leste, quando na verdade gostaria de ir para o Norte. Fácil de resolver: pegue o remo e comece.

A pontada no fígado elucida a realidade. Volto para a sala. Há alguns dias tenho o envelope que seguro em minhas mãos. Me falta coragem de abrir e ler. Convivo com a angústia. Aliás, é algo que sempre esteve ao meu lado; a angústia. Diz que bom mesmo era como no passado. “Os antigos” ou viravam médicos, advogados ou engenheiros. Hoje tem muito mais possibilidades. E não necessariamente o caminho mais ortodoxo, certeiro, garante satisfação.

Pensamentos assim me fazem lembrar de tomar meu ansiolítico. Comprei uma caixinha com os dias da semana. Agora eu tenho como controlar se tomei ou não minha anestesia diária. Ponto a meu favor, pois ninguém merece ficar ansioso por ter esquecido se tomou ou não o remédio contra a ansiedade.

O ranger da porta abrindo acelera repentinamente meu coração. É agora? Sim! Meu nome é chamado e entro na sala do médico. Entrego o envelope branco, respiro fundo, confiro mais uma vez se tomei o remédio. Tomei sim. Tinha conferido faz 5 minutos. Isso é TOC?

O médico abre o envelope e começa a ler. Analiso cada expressão facial do médico como Kasparov analisava as jogadas do Deep Blue. Cada sobrancelha levantada diferente era uma projeção diferente que eu fazia da minha vida. Tempo é relativo mesmo. Trinta segundos analisando o exame me levaram a projetar “N” possibilidades diferentes para o meu futuro dependendo do que o médico dissesse.

Suor frio, calafrio, palpitação, mãos trêmulas e finalmente a notícia. E o alívio! Em um mundo super-conectado, desconexo, cheio de possibilidades, amores e maldades, o médico me disse que eu duraria um mês. Descobrir tal enfermidade e saber do sofrimento pelo qual ia passar no próximo mês não foi tão doloroso. Aliás, me chame de louco, mas foi libertador.

Para quem nasceu nesse mundo onde só importa o agora e temos a ideia de que somos todos imortais, o único mal irremediável foi a cura de toda a minha angústia e ansiedade: direção!

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