Reus já havia perdido a esperança faz algum tempo. Prova disso foi reler alguns rascunhos dos textos que mantinha em um blog pessoal. Sombrios, pesados, sem cor.

Procurava em suas memórias o ponto de inflexão que o fez se tornar tão suscetível à tanta coisa. Talvez, algumas pitadas de arrogância, até mesmo de ignorância, teriam sido primordiais para proteger sua mente de tanta coisa, de tanta gente.

Tem uma suspeita: uma das fases mais difíceis de sua vida, em que sua cartilha de certezas não continha as respostas para as dúvidas que estava enfrentando. Será que era só ele? Todo mundo é assim?

Daí se tornou Simplex. Ora, a dúvida era tão visceral que não havia de ser algo exclusivo seu. A dúvida é inerente ao humano. Simplex acreditou nisso, e mudou sua postura em relação aos outros humanos.

Cada um tem uma história, cada pessoa é singular, ou, como já dizia o poeta: “Cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é”. E, respeitando a história de cada um, Simplex absorvia um pouco de cada uma delas.

Talvez fosse nesse ponto em que a ignorância e a arrogância deveriam ter se manifestado. Simplex, tocado pela epifania a qual o momento difícil o proporcionara, ingenuamente se colocava tanto no lugar dos outros que esquecera o seu próprio.

Quem era ele? Não sabia mais se o que sentia era ele, ou o outro. Não sabia mais se o quê da história breve era desejo dele ou simplesmente um reflexo de tantos outros desejos de tantas outras pessoas que carregava consigo. E Simplex se tornou Gravibus; pesado, denso, fúnebre.

Apesar do aspecto nefasto de Gavibus, nutria esperança, principalmente por ainda conseguir se conectar com relances de momentos bons de sua história. Mas batia o desespero, e tudo a que Gravibus conseguia se agarrar era sua cartilha. Afinal, era o modus operandi dos momentos felizes. Haveria de funcionar! Só piorou. A cartilha era a mesma, mas Gravibus, outra pessoa.

Até que, em meio ao nevoeiro escuro que envolvia sua existência, sentiu algo na nuca, depois nos ombros, e depois, em seu corpo todo. Gravibus havia se esquecido a muito tempo de como era libertador se banhar na chuva. E chorou com ela. Chorou genuinamente com ela.

Nunca havia imaginado que algo tão delicado como uma lágrima poderia ter o poder de rasgar com tamanha violência uma couraça tão dura, construída ao longo de tanto tempo, produto em grande parte de uma complacência sua, e também, da estupidez de tanta gente.

Gravibus, que era Simplex, que era Reus, agora se tornava Redemptio. E Redemptio, tem uma vida toda pela frente!